(Cânticos de um Brasil)
Veio lá da montanha
Onde se quebra o relâmpago
Correndo na enxurrada
Chegou à terminada do rio
Onde começa o mar
E logo que nele se meteu
Descobriu que este rio não tem cabelo
E n’em pelo
Aonde se agarrar
Morreu cedo e cedo virou lenda
Morreu menino
Filho das areias e das conchas
Morreu sem batismo
E por isto é chamado filho do lodo
E há quem acredite que na praia é visto um menino
Se sorrindo de gargalhar
Pensou que na água do mar tinha onde agarrar
E vendo que não tinha vai e vem na preamar
Buscando fincar pé na areia buscando fincar pé no mar.
Menino sem certo lugar
Tem lugar na areia tem lugar no mar
Tem parte com sereia
Tem parte com costeira
Lá na montanha, tem um encanto
Feito pelo pai que viu seu menino na corredeira
Água nasce escondida e sorrateira
No pé de alguma pedreira
E em segredo vira rio
Para o pai não ver
O motivo do seu lamentar
Pai que sofreu com o rio
As dores dos que serpenteiam
E na vida pai não julga sabe que o rio
Leva e não traz
Aguarda a chuva que nasce do céu
E tem parte com o rio e parte com o mar
Chuva que leva e que traz
E na aguada fará seu menino voltar
Do sal do mar do doce do rio para um mesmo lugar
Para o braço da mãe para o abraço do pai
Naquela praia tem um menino que si ri de gargalhar
É menino de rio é menino de mar
É menino sem certo lugar
Nem no repouso encontra a paz que espera, Para lhe adormecer toda a quimera, Os circulos fatais do seu inferno - Cruz e Sousa.
domingo, 20 de dezembro de 2009
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Destarte
Hoje é mais um dia na vida de Maria;
Maria é mulher de muitos dotes e esperta valentia,
Nasceu de sete meses de parto natural,
A mãe; mulher de muitos credos teve Maria no quintal,
Ali dentro da bacia, em cima da roupa que estendia,
Assim que respirou a respiração, que cria normal
Vociferou: Minha santa me acuda; meu pai me guia,
Nasceu esta que se chamara Maria, mãe do menino, nascido no natal
Meu senhor Jesus, meu pai oxalá, que farei agora
E n’um arranco gritou: Comadre me ajuda que tive menina!
E da dor ao pranto a vizinhança de mulheres Marias, ora;
E tantos são os deuses evocados, que Maria, enfim chora!
E foi a ultima vez que na face de Maria a lagrima se fez,
Maria seguiu destino, e logo cedo pariu menino de escura tez
Maria diz; com encanto de mãe que se desculpa; o pai é assim... Moreno!
Mas a mãe dele é branca como eu! Vai ser belo moço, vai vê!
Vai estudar, e logo que crescer vai enriquecer minha vida e do nenê,
Nenê é o pai que não teve estudo, mal sabe escrever e o pouco que lê
É para se alegrar, com o que o filho escreve; ainda que seja o próprio nome,
Na pagina do caderno de beabá, e não falta esperança neste recanto sereno:
Barraco de tijolo baiano de seis furos e telha de fibra sem amianto
Lar de Maria, seu nenê e do menino de dez anos, mulato de encanto,
Varonil, nascido nesta pátria Brasil, terra de mestiços, encouraçada
Na crença de que bom é o alimento servido na bandeja alourada!
Maria é mulher de muitos dotes e esperta valentia,
Nasceu de sete meses de parto natural,
A mãe; mulher de muitos credos teve Maria no quintal,
Ali dentro da bacia, em cima da roupa que estendia,
Assim que respirou a respiração, que cria normal
Vociferou: Minha santa me acuda; meu pai me guia,
Nasceu esta que se chamara Maria, mãe do menino, nascido no natal
Meu senhor Jesus, meu pai oxalá, que farei agora
E n’um arranco gritou: Comadre me ajuda que tive menina!
E da dor ao pranto a vizinhança de mulheres Marias, ora;
E tantos são os deuses evocados, que Maria, enfim chora!
E foi a ultima vez que na face de Maria a lagrima se fez,
Maria seguiu destino, e logo cedo pariu menino de escura tez
Maria diz; com encanto de mãe que se desculpa; o pai é assim... Moreno!
Mas a mãe dele é branca como eu! Vai ser belo moço, vai vê!
Vai estudar, e logo que crescer vai enriquecer minha vida e do nenê,
Nenê é o pai que não teve estudo, mal sabe escrever e o pouco que lê
É para se alegrar, com o que o filho escreve; ainda que seja o próprio nome,
Na pagina do caderno de beabá, e não falta esperança neste recanto sereno:
Barraco de tijolo baiano de seis furos e telha de fibra sem amianto
Lar de Maria, seu nenê e do menino de dez anos, mulato de encanto,
Varonil, nascido nesta pátria Brasil, terra de mestiços, encouraçada
Na crença de que bom é o alimento servido na bandeja alourada!
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Família Nagô
Que fazer com a casa desarumada?
Com os olhos críticos do branco?
Com os preconceitos edemáticos?
Tudo isso não são peripécias do acaso,
são afeições,
fervor,
gosto,
sentenças...
são para dar arras ao temperamento
às visitações incessantes.
Dobrado no dia e na noite
o transporte de antigos segredos
do sonho bebido em bronze,prata e ouro,
sustento das palavras não ditas
lembranças das que ficaram.
Aqui não temos assoalhos compridos
nem jarros para de flores com água mudada frequentemente.
Só a proteção do céu existe;
pra males físicos,morais e espirituais.
Em potes os ingredientes para o aluá.
Axé!
Axé!...Axé!...
Expandam-se os males com garrafinhas com água
e galho de arruda colocado no centro da mesa
caixotes
cuias
tijelas de barro
latas de doce do senhor deixadas.
- Pra todas bandas a inocência -
Se chegue ao Quintal de Nagô!
Negrinha, que escondes atrás da porta?
em baixo das tuas palhas
nos rasgões do tecido surrado
nos cestos
nos balaios
nos tabuleiros
debaixo da tua lingua?
- Miséria que vem a galope -
A matéria forte
vinda como vento
sacode as narinas.
Surge no corpo
acarinha as coxas quentes
as ancas fortes
sob um peitinho de seda preta
que chama pra longas navegações
que recebe a dádiva do céu e da lua.
A proteção de todos os Orixás.
Um peixe vermelho faz tremer os olhos negros do negro
enfeitiçando tudo...
e seu tronco feito relâmpago
capaz de afagar os cinco cantos do mundo
espelha realeza.
Que ora despojada luta contra a sede e a fome.
No tamborimento dos teus dedos
o contar das estrelas
o bater de todos os atabaques.
Obá!
Obá!...Obá!...
Não ponhas nada fora.
A tina da barrela de cinza pra lavar
a bacia de areia molhada pra lixívia.
Visíveis e invisíveis formas;
da terra
do mar
do fogo
do ar.
Fertilizando e enraizando a nova terra.
Poema de Vicente de Percia"QUINTAL DE NAGÔ" do livro " BRASIL DA SILVA:MISTÉRIO DE CHORAR" Edit/ Achiamé, Rio de Janeiro,1ª 1982 em 4ª edição.
Com os olhos críticos do branco?
Com os preconceitos edemáticos?
Tudo isso não são peripécias do acaso,
são afeições,
fervor,
gosto,
sentenças...
são para dar arras ao temperamento
às visitações incessantes.
Dobrado no dia e na noite
o transporte de antigos segredos
do sonho bebido em bronze,prata e ouro,
sustento das palavras não ditas
lembranças das que ficaram.
Aqui não temos assoalhos compridos
nem jarros para de flores com água mudada frequentemente.
Só a proteção do céu existe;
pra males físicos,morais e espirituais.
Em potes os ingredientes para o aluá.
Axé!
Axé!...Axé!...
Expandam-se os males com garrafinhas com água
e galho de arruda colocado no centro da mesa
caixotes
cuias
tijelas de barro
latas de doce do senhor deixadas.
- Pra todas bandas a inocência -
Se chegue ao Quintal de Nagô!
Negrinha, que escondes atrás da porta?
em baixo das tuas palhas
nos rasgões do tecido surrado
nos cestos
nos balaios
nos tabuleiros
debaixo da tua lingua?
- Miséria que vem a galope -
A matéria forte
vinda como vento
sacode as narinas.
Surge no corpo
acarinha as coxas quentes
as ancas fortes
sob um peitinho de seda preta
que chama pra longas navegações
que recebe a dádiva do céu e da lua.
A proteção de todos os Orixás.
Um peixe vermelho faz tremer os olhos negros do negro
enfeitiçando tudo...
e seu tronco feito relâmpago
capaz de afagar os cinco cantos do mundo
espelha realeza.
Que ora despojada luta contra a sede e a fome.
No tamborimento dos teus dedos
o contar das estrelas
o bater de todos os atabaques.
Obá!
Obá!...Obá!...
Não ponhas nada fora.
A tina da barrela de cinza pra lavar
a bacia de areia molhada pra lixívia.
Visíveis e invisíveis formas;
da terra
do mar
do fogo
do ar.
Fertilizando e enraizando a nova terra.
Poema de Vicente de Percia"QUINTAL DE NAGÔ" do livro " BRASIL DA SILVA:MISTÉRIO DE CHORAR" Edit/ Achiamé, Rio de Janeiro,1ª 1982 em 4ª edição.
O dialogo no silencio

No horizonte o esqueleto;
De perto suor e cimento;
Abaixo da marquise o desalento;
Na boca a saliva seca e o rugido
Famigerado: maldita vida que me encerra,
Neste pleito de comer hoje o sonho de ontem!
Menino com quantos ais a tua soma de dor e castigo
Completar-se-á? Quem o castiga? Quem pecou primeiro?
Onde esta tua nação? Quem são teus pais?
O arroz no prato de puro plástico é pouco;
E tu o come com o regalo de um rei entre marginais,
Na tua pele negra, meu julgo e uma violência que não nego,
Nasceste em que barraco, por que me fustigas com tua presença?
Não partilhe comigo tua aflição, não tenho tua delicadeza e certeza no futuro.
Morri agora pouco, quando chegavas e me queres vivo a vociferar a largueza
Do teu sorriso claro feito o garfo de plástico com que sorves o arroz pobre
Deixe-me, vou embora, quiçá encontrar Manoel e hastear bandeira
Gritar contra os que lesam a humanidade e travar dura guerreira
E definitivamente encarcerar meus sentimentos, não quero a lagrima
E não direi a La Alphonsus pobre de mim que morro de exasperação e desesperança!
Assinar:
Postagens (Atom)